sexta-feira, 29 de junho de 2007

As palavras de Isaac...

As palavras de Isaac...

A minha mais importante frase no momento (e talvez o definitivo mantra deste diário) é a seguinte:

"Quanto mais tu conheceres o passado menos te impressionarás pelo presente."

[Frase geralmente atribuida a Sir Isaac Newton, possivelmente referindo-se diretamente ao gênio de Arquimedes.]

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Este foi realmente o meu lema na recente revisão (revisão esta que me levou a um melhor entendimento sobre o tema, melhor até do que eu jamais poderia imaginar mesmo em meus mais insanos devaneios) das grandes séries SCIFI na TV. Tal revisão foi concluida só lá por dezembro de 2006.

Se uma nova visão sobre séries já velhas conhecidas desde a infância (por exemplo da primeira temporada da versão original de The Outer Limits), agora de um espectador muito mais maduro e especialmente cuidadoso com a perspectiva histórica de cada item se mostrou deveras chocante, que dirá de séries que simplesmente não conhecia (além do tradicional "já ouvi falar", é claro).

Conhecer (finalmente) uma série como Blake's 7 foi extremamente assustador, pois a "demolição de verdades absolutas" a que ela me submeteu foi por vezes avassaladora. E aprendi muito com isto. Dizem que você só realmente aprende alguma coisa quando é arrancado da sua zona de conforto e tem que lidar com isto. Este foi certamente o meu caso (em um processo em que o citado mantra foi absolutamente fundamental, tanto para cavar a terra, quanto para compreender o contéudo do baú nela enterrado).

(Ao assistir pela primeira vez a B7, tantas foram as surpresas, que nem mesmo o cliff-hanger do final de The Best Of Both Worlds I de A Nova Geração escapou de ver desvendado um seu claro antepassado histórico. Deveras revelador, sem dúvida alguma!)

Outras foram as surpresas, as quais também ganharão estas páginas em seu devido tempo:

- o pioneirismo em séries sobre paranóia (e invasões alienígenas) visto em Quatermass;

- a série mais cult de todos os tempos (e pioneira em estruturação): The Prisoner;

- a brutal originalidade, crueza e convicção em Yamato e Gundam;

- A desconcertante sofisticação de Ghost In The Shell e Evangelion;

- e talvez a série que mais deixe boquiaberto a todos pela falta de conhecimento anterior sobre a mesma: The Legend Of The Galactic Heroes.

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Ao mergulhar agora no universo dos grande filmes do Cinema (começando também pelo gênero SCIFI por simplicidade e praticidade) de todos os tempos, não poderia ser diferente e mantenho o mesmo mantra, pois afinal (e com o perdão do óbvio clichê): "em time que está ganhando não se mexe". Só lamentando não poder estar avançando muito neste sentido por falta de tempo e (ou) organização. Dai uma lista (como aquela publicada a respeito das séries SCIFI televisivas) ainda vai demorar um pouco. De fato, até certa altura as coisas iam caminhando bem, até simplesmente emperrarem e não engrenarem mais.

Fiz então de marco inicial (como dito) o Cinema SCIFI e a conhecida lista da OFCS como referência básica (e até certo ponto o arquivo do tradicional prêmio Hugo de ficção científica). É claro que não vou me preocupar em re-examinar filmes que já assisti várias vezes e não gostaria de guardar para a posteridade (obviamente toda a informação em primeira mão já me é disponível). Ver inúmeras vezes um mesmo filme e ainda assim querer tê-lo sempre disponível para uma próxima vez é um teste e tanto de valor (talvez o mais importante inclusive).

Em todo o processo anterior das séries SCIFI televisivas, sempre me vi preocupado em estar ficando "muito mole" e muito "bonzinho" com os produtos de entretenimento em geral. Então decidi ser muito mais agressivo (para falar a verdade esta renovada atitude já havia sido lançada na música, antes mesmo da revisão das séries SCIFI, o que recupera ai uma trajetória pessoal de mais de 26 anos, que agora faz mais sentido do que nunca).

Decretei de pronto que os filmes de Jornada Nas Estrelas não eram relevantes enquanto cinema de qualidade (dai os tirei da minha "lista interna") e fiz o mesmo com os filmes da "trindade" Lucas-Spielberg-Zemecks (diretos, indiretos e em espírito). Tais coisas simplesmente não me interessam mais (algumas nunca me interessaram, nunca me disseram absolutamente nada). Quero coisas novas e alternativas feitas hoje ou décadas atrás tanto faz.

Os filmes SCIFI trouxeram comparativamente (até o momento) menos surpresa do que quando do exame das séries SCIFI, talvez ou por eu já estar mais preparado ou por ainda me faltar a descoberta de alguns "elos perdidos" (grande parte do divertimento com a tarefa está justamente neste tipo de "revelação").

O fascínio maior é (tentar) construir árvores de influência considerando a cronologia da coisa (ao contrário, por exemplo, dos simplórios rankeamentos que ocorrem com tamanha frequencia por ai). A dificuldade aqui neste último ponto é definitivamente maior do que com as séries SCIFI televisivas e tem sido fonte de alguma frustração até o momento. Espero desatar tal "nó" (especialmente no que se refere a produção dos primeiros quarenta anos do século vinte) em breve.

A lista da OFCS ainda jaz aqui em forma residual, com alguns filmes que ainda não consegui obter, apenas um de fato não vi, o que é muito bom sinal, e outros que ainda estou na dúvida de simplesmente descartar ou obter e possivelmente reconsiderar. Como ainda tenhos alguns títulos bastante populares na lista, concluo que não estou ainda tão "carrasco" quanto gostaria, deve ser a idade avançada. Mas, honestamente, ao final do processo, quase nenhum destes deve restar.

Aproveitei para investir (e tal avaliação com certeza já consegui fazer, pelo menos) mais a fundo em um bando de caras que sempre considerei afins ao gênero (entre outras esquisitices é claro). Para os interessados, eles formam um quarteto: um Stan, um Andrei e dois caras chamados David (deixo para o leitor descobrir os sobrenomes).

Um mergulho no mundo do anime (na parte de Cinema, complementando a parte de TV) também foi deverás fascinante e esclarecedor. Continuando, sempre buscando por alternativas e pontos de maior ressonância pessoal e procurando fugir a todo custo das convenções que as pessoas parecem necessitar (e as vezes mesmo, tristemente, até para entender o que enxergam em tela) em tais produtos de entretenimento.

Mesmo com o trabalho declaradamente inacabado cabem citar algumas obras (já selecionadas para a lista final) compreendidas de "Le Voyage Dans la Lune" até "Children Of Men", passando por: "Metropolis", "Things to Come", "Forbidden Planet", "La Jetee", "Last Year at Marienbad", "Dr.Strangelove", "La Planete Sauvage", "Brazil", "Akira", "Ghost In The Shell", "Abre Los Ojos", "PI", "Donnie Darko", "Eternal Sunshine Of The Spotless Mind" etc.

Tais obras já dão a idéia antecipada do escopo e da variedade da relação última pretendida. Ainda que não se possa fazer agora uma publicação de boa fé, já são claros alguns padrões históricos: como as referências originais de certos sub-gêneros, filmes que parecem ser refeitos de tempos em tempos (!), filmes que são refeitos de tempos em tempos (?!), claros reflexos de época (com e sem uma fatal datação), os mais singulares, os mais influentes etc.

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O ato final (e um que eu honestamente considerava já presente, mas com os atrasos virou um cada vez mais distante futuro) para mim nesta "pequena aventura" é o dos melhores filmes de todos os tempos (em geral).

Usarei como referência um site que recomendo fortemente ( o They Shoot Pictures: http://www.theyshootpictures.com/ ), cuja abordagem centrada em diretores casa perfeitamente sobre o meu entendimento de tal arte. A maior parte da informação lá presente está apresentada na forma de rankeamento. Ignorem tal abordagem e usem somente os nomes citados. O site é de fato extremamente util. A multitude de informações utilizadas nas suas diversas compilações é incrivelmente abrangente e literalmente caótica e a emergência de tantos claros padrões em tamanho caos é igualmente fascinante e satisfatória a nível pessoal.

O site traz:

I) Uma lista dinâmica dos cem melhores diretores de Cinema de todos os tempos:


II) Uma lista dinâmica dos cem melhores filmes de Cinema de todos os tempos:


(Nesta página tem os 25 primeiros e você seleciona no alto dela pelas outras páginas que trazem os demais filmes.)

III) Uma lista dinâmica com os 250 melhores filmes de Cinema do século 21 (ou do "novo milênio" se preferirem):


(Nesta página tem os 50 primeiros e você seleciona no alto dela pelas páginas que trazem os demais filmes. Perfeita para dar presentes. Podem me acreditar!)

(Esta última página me deu inclusive a idéia de chamar todo novo filme que eu gostar de "clássico do novo milênio". Cinismo pouco é bobagem, é claro...)

O site traz ainda uma infinidade de informações do passado e do presente, muito bom mesmo.

Tomando a lista dos cem melhores filmes (deste Site) como base (além dos principais trabalhos dos diretores velhos favoritos - os quais são todos citados, sem exceções, na correspondente lista) irei investigar o melhor do Cinema de todos os tempos. Possivelmente nunca irei ficar satisfeito com os meus achados em tal mamutesca tarefa, mas tal jornada por si só é muito mais interessante do que praticamente qualquer novo filme feito dentro do sistemão típico da presente (e fatalmente futura) Hollywood (e dos sistemas que a imitam, que não são poucos infelizmente). Esta tarefa eu já considero impossível em termos práticos, mas mesmo assim irei ao menos tentar pelo aprendizado, divertimento e fascinação, mas NUNCA tentarei fazer uma lista das melhores séries de TV em geral, nem imagino como começar e tenho sérias dúvidas do que posso retirar concretamente em qualquer nível de tal experiência.

Deixo o convite para que visitem o passado, o qual é para a sétima arte especialmente, muito mais interessante do que o presente de um modo geral. Mesmo com a visão mais superficial possível, a reciclagem de idéias chegou ao ponto da total indigência. As platéias estão sendo treinadas em tal ritual e estão pedindo por mais. Talvez seja uma situação terminal de fato. Talvez seja mais do que nunca a hora de dar uma chance ao passado para tentar uma alternativa futura. E, por agora, brindar as grande realizações de outrora.

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Newton foi de fato um profeta em muitos sentidos, mas talvez nem mesmo ele fosse capaz de imaginar a arrepiante noção de que alguns poucos séculos depois (da época em que viveu) a definição formal de número real (e o nascimento da Análise Matemática como a conhecemos hoje) fosse finalmente obtida com rigor compatível ao legado de Arquimedes e pasmem usando uma idéia (em última instância) equivalente a teoria das proporções de Eudóxio, um Matemático mesmo anterior ao famoso "cara da alavanca". Talvez a frase de Newton seja "um pouco" mais geral do que ele própria sonhara.

As palavras de Isaac...

sábado, 23 de junho de 2007

Melhores bateristas de rock pesado

Melhores bateristas de rock pesado

01 - Bill Ward

02 - Cozy Powell

03 - Tommy Aldridge

04 - Clive Burr

05 - Kim Ruzz

06 - Nicko McBrain

07 - Mikkey Dee

08 -Lars Ulrich

09 - Deen Castronovo

10 - Scott Travis

11 - Mark Zonder

12 - Vinnie Paul

13 - Tomas Haake

14 - Sean Reinert

15 - Gene Hoglan

16 - Richard Christy

17 - Bobby Jarzombek

18 - Mike Terrana

19- Aquiles Priester

20 - Brann Dailor

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OUTROS NOMES CONSIDERADOS:

METAL: Andy Parker , Steve Upton , Brian Downey , Jurgen Rosenthal , Roger Taylor , Phil Taylor , Les Binks ,  Pete Gill ,  Lee Kerslake , Stefan Kaufmann , Duncan Scott , Jeff Olson , Ingo Schwichtenberg , Mike Bordin , Daniel Erlandsson , John Dolmayan , Chris Adler... Will Calhoun , Stephen Perkins , Brad Wilk , Matthew McDonough , Phil Ehart , Matt Cameron , Sean Kinney , Anders Johansson , Ricardo Confessori , Eloy Casagrande , Bruno Valverde...

THRASH & DEATH METAL: Dave Lombardo , Charlie Benante , Paul Bostaph , Tom Hunting , Kirk Arrington , Gar Samuelson , Nick Menza , Igor Cavalera , Pete Sandoval , Raymond Herrera , Jurgen Reil , Marky Edelmann , Ken Owen ...

PROG METAL: Scott Rockenfield , Rick Colaluca , Mike Portnoy , Jason Rullo , Martin Lopez ,  Martin Axenrot , Alex Holzwarth ...

TECH & EXTREME METAL: Mario Duplantier , Peter Wildoer , Flo Mounier , Steve Flynn ,  Hannes Grossmann , Jason Bittner ,  Yanic Bercier ...

Melhores bateristas de rock pesado

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Review de The Godfather I (1972)

"THE GODFATHER I (1972)"

Duração: 175'

Recomendação: 4/4

"The Godfather" é o mais influente filme sobre crime organizado (especialmente da Máfia - nome nunca usado no roteiro) dos últimos 35+ anos e provavelmente de todos os tempos. Poucos filmes criaram elementos tão reconhecíveis na cultura popular e foram tão citados, imitados, copiados e parodiados desde então, quanto este. Sua influência vai desde pérolas de diálogo (como "eu vou fazer um proposta que ele não poderá recusar") até os traços físicos dos atores coadjuvantes (tipos de corpo e de faces). Mesmo pessoas que nunca viram tal filme, conseguem identificar claramente múltiplos elementos originários dele. Ele é TÃO influente assim.

Deixando a sua história completamente contida no universo da "Máfia" e nos fazendo julgar todos os personagens nos termos de tal universo, "The Godfather" produz o convite à experiência cinematográfica e possibilita a abstração de idéias tão necessária a um grande épico. Transcendendo qualquer estereótipo de "melodrama sobre imigrantes Italianos", o filme se baseia fortemente em temas atemporais como vingança, lealdade, responsabilidade para com a família, necessidade de auto-afirmação, legado paterno, corrupção pelo poder etc. Sendo uma tragédia épica de proporções Quasi-Shakesperianas. Para completar tal quadro, cada aspecto da produção do filme é (essencialmente) perfeito, nunca deixando fugir o encanto do espectador.

A história é bem conhecida. Don Vito Corleone é o um dos chefes da Máfia de New York e New Jersey. Ele tem cinco filhos: Sonny (brigão e mulherengo), Tom Hagen (filho adotivo, advogado e conselheiro da "Família"), Fredo (simplório e fraco, mas no fundo com bom coração), Connie (única filha, cujo casamento com Carlo abre o filme) e Mike (o caçula). Ele também possui dois sócios de longa data: Clemenza e Tessio. Após a segunda Guerra (1945), as outras "Famílias" da Máfia querem abraçar o tráfico de drogas na região. Quando Don Vito se mostra contrário à idéia, ele sofre um atentado. Quando a vida de seu pai jaz por um fio, Mike decide recorrer a todos os meios necessários para proteger a sua família. Esta é a história das trágicas conseqüências de tal decisão.

"The Godfather" também é famoso por momentos de grande violência. De fato, existem inúmeros momentos extremos neste sentido, os quais são produzidos e inseridos com precisão cirúrgica ao longo do filme (sempre servindo a história e sempre indo direto ao ponto): a cabeça do cavalo de Woltz em sua cama, a morte de Luca Brasi, o atentado a vida de Don Vito, a morte de Paulie, Mike matando McCluskey (um capitão de polícia corrupto) e Sollozzo (um Turco, traficante Internacional de drogas - responsável pelo atentado a vida de Don Vito) no restaurante, Sonny espancando Carlo, a violência doméstica de Connie e Carlo, o fuzilamento de Sonny, a morte de Appolonia, toda a famosa seqüência do batismo (uma obra-prima do Cinema por si só - em que Michael torna-se o "padrinho" em mais de um sentido) e a morte de Carlo. Todos são intensos e breves e todos traduzem um assustador balanço entre ação e reação que serve para guiar a história.

O filme (como já foi dito) é sobre Michael Corleone, personagem que atravessa o caminho de um herói de guerra e caçula da família (namorando para casar a senhorita Kay Adams) que o pai queria poupar da vida de crime, até tomar o lugar do pai, como o novo Don Corleone ao final do filme (uma criatura muito mais brutal do que o pai jamais foi). Assim como de seu personagem, o filme é (em grande parte) de Al Pacino, com uma atuação incrivelmente densa e contida (fãs do ator de anos mais recentes, em que ele freqüentemente "espana cenário para todo lado", tem uma grande dificuldade de reconhecer tal estilo contido como o do ator e mesmo reconhecer o físico de Pacino neste filme). O momento da virada do personagem é na seqüência do hospital em que Mike percebe que se ele não fizer algo e rápido, o seu pai (em coma após o atentado contra a sua vida) vai ser morto. Ele diz então ao velho desacordado: "estou com o senhor agora". Seguindo um caminho sem retorno. Na cena da escadaria, em que fingem ser seguranças de Don Vito para enganar os assassinos enviados para dar cabo do velho, Enzo treme como um louco, enquanto Mike calmamente acende o cigarro do padeiro.

Depois Mike tem o maxilar quebrado por McCluskey, sugerindo sutilmente (aproximando-o fisicamente do seu pai) que ele seria o novo "Don" e mata um capitão de polícia, algo que nunca havia sido feito antes, mesmo apontando uma inteligente manobra de controle de danos usando a imprensa (o "show com os olhos" de Pacino na cena do restaurante, antes de cometer o duplo homicídio é indescritível - É ver pra crer!). Refugiado na Sicília, casa com Appolonia (a ama perdidamente, mas não deixa de amar e pensar em Kay o tempo todo) e tenta fazer o melhor da situação. Mas a morte de seu irmão mais velho Sonny e da sua esposa (a figura mais inocente do filme) tinham que ter uma resposta. Ele não poderia deixar a sua "família" desmoronar (ele acaba se casando com Kay no seu retorno a América).

O curioso é como os elementos de sua vingança se apresentam. O fato de Fredo ter sido maltratado por Moe Greene (elemento que é vendido mais por subtexto do que por qualquer outra coisa) em Vegas aponta para o fim de Moe. Eis que temos a cena em que Mike diz a Fredo para que ele "nunca fique contra os interesses da 'família' de novo", a face impenetrável de Michael (já reconstruída) é um monumento de poder e completamente opaca com relação aos seus planos e pensamentos (como um "Don" deve ser). Barzini é revelado finalmente como o grande vilão (de uma forma com bastante estilo e via subtexto) e tem o seu destino, juntamente com os demais "Dons" que foram coniventes com as suas manobras. Tessio, cada vez mais pressionado, trai Mike. Também recebendo a vingança do novo "Don".

O tratamento da traição de Carlo (plantada sutilmente pelo roteiro) foi o mais representativo quanto à mentalidade da "família". Ele trouxe Carlo para dentro dos negócios para mantê-lo feliz, como se tudo tivesse passado, mesmo concordando em batizar o seu filho (no fundo, obtendo um álibi perfeito) e ao final mata o cunhado e mente fria e descaradamente para a sua irmã e para a sua (segunda) esposa sobre o seu envolvimento em tal morte. Tudo pela "família".

A atuação de Brando é simplesmente mitológica. É um completo mistério como ele consegue falar e ser levado a sério ("dentro" e "fora" do Filme) mesmo com uma prótese dentária que o deixa (literalmente) com a "cara de um buldogue". Sua escolha de interiorizar todo o poder do "Don" é igualmente fantástica. O detalhado gestual do seu personagem é um show à parte de composição, com direito até a um gato que ele achou perdido dentro dos estúdios da Paramount. Sua expressão quando Vito finalmente pede o "tal favor" (que ao contrário do que a cena inicial do filme deixa no ar não é nenhuma maldade) ao agente funerário Bonasera é comovente. A cena da morte do seu personagem (largamente improvisada) é tão bela quanto singela. Brilhante!

Impressionante é a paciência de Coppola em manter um andamento constante e vigoroso e ao mesmo tempo colocar um sem-número de detalhes em cada tomada. O andamento do filme é tão consistente e seguro que ele passa muito rápido, mesmo com quase 3 horas de duração. Isto sem falar na inesquecível fotografia sombria de Gordon Willis (que partiria também para uma bem sucedida parceria com Woody Allen) e na infinitamente tocante trilha de Nino Rota (de vários trabalhos com Felini). A reconstituição de época também é maravilhosa. O elenco é excepcional (especialmente levando em conta o grande número de atores). Ainda que existam problemas isolados (Al Martino é obviamente um deles), raramente o pensamento de que alguém está "atuando" passa pela cabeça do espectador, tendo em Pacino e Brando os seus maiores destaques. As mulheres são intencionalmente escritas de uma maneira unidimensional, como parte do universo retratado. Shire e especialmente Keaton são obviamente capazes de muito mais.

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ELENCO PRINCIPAL:

Marlon Brando .... Don Vito Corleone/Andolini
Al Pacino .... Don Michael 'Mike' Corleone
Diane Keaton .... Kay Adams-Corleone
Richard S. Castellano .... Peter Clemenza
Robert Duvall .... Tom Hagen
James Caan .... Santino 'Sonny' Corleone
Talia Shire .... Constanzia 'Connie' Corleone-Rizzi
Sterling Hayden .... Police Captain McCluskey
John Marley .... Jack Woltz
Richard Conte .... Don Emilio Barzini
Al Lettieri .... Virgil 'The Turk' Sollozzo
Abe Vigoda .... Sal Tessio
Gianni Russo (I) .... Carlo Rizzi
John Cazale .... Frederico 'Fredo/Freddie' Corleone
Rudy Bond .... Ottilio Cuneo
Al Martino .... Johnny Fontane
Morgana King .... Carmella 'Mama' Corleone
Lenny Montana .... Luca Brasi
John Martino (I) .... Paulie Gatto
Salvatore Corsitto .... Bonasera the Undertaker
Richard Bright .... Al Neri
Alex Rocco (I) .... Moe Greene
Tony Giorgio (I) .... Bruno Tattaglia
Vito Scotti .... Nazorine the Baker
Tere Livrano .... Theresa Hagen
Victor Rendina .... Phillip Tattaglia
Jeannie Linero .... Lucy Mancini, Sonny's Mistress
Julie Gregg .... Sandra Corleone
Ardell Sheridan .... Mrs. Clemenza
Simonetta Stefanelli .... Appolonia Vitelli-Corleone
Angelo Infanti .... Fabrizio
Corrado Gaipa .... Don Tommasino
Franco Citti .... Calo, Michael's Bodyguard in Sicily
Saro Urzì .... Signor Vitelli, Apollonia's Father

DIREÇÃO: Francis Ford Coppola

ESCRITO POR: Francis Ford Coppola & Mario Puzo (também autor do livro)

FOTOGRAFIA: Gordon Willis

OBRAS RECOMENDADAS DO DIRETOR: "THE GODFATHER I (1972)", "THE GODFATHER II (1974)", "APOCALYPSE NOW (1979)", "THE CONVERSATION (1974)" E "THE GODFATHER III (1990)".

"THE GODFATHER I (1972)"

Review de Apocalypse Now (1979)

"APOCALYPSE NOW (1979)"

Duração: 153'

Recomendação: 4/4

O capitão Willard (em uma rápida reunião com o general Corman, o coronel Lucas e um civil de nome "Jerry") recebe uma missão confidencial, matar o coronel Kurtz, um dos mais condecorados soldados do exército Americano. Kurtz enlouqueceu, se tornando uma espécie de figura messiânica para os montanheses Cambojanos, que agora formam o seu exército particular, ajudando-o a promover atrocidades que beiram o inacreditável. Willard e Kurtz são das forças especiais. Willard é literalmente um agente da C.I.A usando um uniforme.

Willard pega uma carona, rio Nung acima, de um pequeno barco patrulha, comandado pelo chefe Philips e com mais três tripulantes: o maquinista Hicks (um cozinheiro especialista em molhos), o armeiro Johnson (um surfista campeão) e o também armeiro Miller (um pivete). Durante a viagem eles consomem fartas quantidades dos mais diversos tipos de droga, ouvem rock e mesmo esquiam na água. Willard serve como os olhos da audiência nesta viagem rio acima, que se mostra eficiente para criar antecipação pelo encontro com Kurtz. Willard lê o relatório sobre o coronel à medida que mergulha mais e mais na loucura que vitimou aquele militar.

Willard e cia. precisam da ajuda do tenente coronel Kilgore (comandante de uma "cavalaria de helicópteros") para atravessar um ponto do rio em que o barco não pode passar. Eles o encontram pacificando uma aldeia, alvo do seu último ataque, e são objeto de uma equipe de reportagem (formada por Coppola e companhia, aliás). Kilgore (que distribui "cartas de baralho da morte" sobre as suas vítimas, como uma "assinatura pessoal") não está muito interessado em ajudar Willard, até que descobre que o tal local do rio é um excelente ponto para prática do surf. Apesar de ser um local bem guardado com artilharia antiaérea ele ordena o ataque, "por que Charlies não surfam".

Ai que acontece a seqüência mais marcante do filme, um ataque a base inimiga ao som da "Cavalgada das Valquírias" de Wagner. Após chegar ao solo, Kilgore ordena que alguns dos seus homens testem as ondas AINDA sob fogo inimigo. Querendo também entrar na água, ele ordena um ataque com napalm sobre a floresta. Após a brutal ofensiva ele respira fundo e diz: "Adoro cheiro de napalm pela manhã".

Seguindo viagem, a tripulação do barco patrulha ainda encontra: um tigre durante uma inocente colheita de mangas (reparem na fotografia que mostra Willard e Hicks infinitamente pequenos diante da natureza), um show (que termina em confusão) de coelhinhas da playboy para os soldados de um posto militar de abastecimento, a trivial revista de um barco que termina com o massacre de uma inteira família de inocentes e a última parada na ponte de Do-Lung (que é destruída e reconstruída todos os dias, com soldados que lutam completamente no piloto automático sem saberem ao menos quem é responsável pelo lugar - muitos pedem uma desesperada carona ao barco). Aqui Johnson se droga e fica doidão até o final. A partir deste ponto do rio, só restava mesmo Kurtz.

Ataques iniciais com armas de fogo e flechas ( e lanças) vitimam Miller (ao som de uma fita gravada por sua mãe) e Phillips (que ainda tenta levar Willard junto com ele) respectivamente. Finalmente os restantes chegam ao seu destino. Um estranho templo povoado por uma multidão de nativos, alguns militares Americanos (até mesmo o soldado que foi enviado anteriormente para tentar fazer o serviço agora aos cuidados de Willard, um certo capitão Colby) e um foto-jornalista (que acaba servindo como um enlouquecido "bobo da corte" para Kurtz). O tal "santuário" é decorado por corpos, corpos decapitados e cabeças.

Finalmente (com quase duas horas de filme) Willard encontra Kurtz, após uma breve conversa Willard fica preso por um bom tempo. Kurtz continua estudando o capitão e em certo momento deixa a cabeça de Hicks de presente no colo de Willard. Durante este tempo, Kurtz conta sobre o evento que o colocou pela primeira vez em contato com "O horror...".

Ele (com sua equipe das forças especiais) havia inoculado um vilarejo contra a poliomielite. Para pouco tempo depois ouvir os gritos desesperados de um velho e ver a pilha de pequenos braços arrancados pelo inimigo. Foi neste momento, em que Kurtz percebeu até que ponto os "Viet Congs" estavam dispostos a chegar para vencer o conflito, que ele entendeu pela primeira vez o citado "horror...".

Eventualmente Willard se torna "de casa". Ele pode ficar ou partir. Fica claro que Kurtz não consegue mais viver e que ele viu algo em Willard que o qualifica para o trabalho. O capitão volta ao barco pega um facão e se esgueira até o interior do templo onde massacra Kurtz ao mesmo tempo em que os nativos também massacram uma vaca em um ritual. Quando deixa o templo, Willard é saudado como seu novo Messias, pelos montanheses, mas não se interessa pelo cargo e toma Johnson pelo braço e segue rio abaixo, com a lembrança. "O horror... O horror... O horror...".

Curiosamente o mais popular filme sobre a guerra do Vietnam (e o melhor se quisermos realmente inclui-lo neste "nicho"), utiliza tal conflito primariamente como um meio para explorar os mais sombrios aspectos da alma humana. Ele parece dizer que somos afortunados o bastante se nunca experimentarmos o tal "horror" em nossas vidas. Desta forma nunca nos damos conta do quanto estamos sempre próximos a um abismo sem fundo. Como andamos sempre sobre uma fina linha de paralelepipedos ladeada pela escuridão sem fim. Kurtz conseguiu tal "iluminação" e ainda foi mais além tentando usar tal "conhecimento" para "cumprir melhor a sua missão". Mas as coisas não funcionaram e em um certo ponto tudo que restou foi o "Horror", com lampejos da mais pura e brutal lógica (o que torna tudo ainda mais assustador). Ao final, Willard se transforma em um instrumento da própria natureza, que expurga tal "deformidade". Ao final, com o que sobrou de sua humanidade, ele abre mão de tal poder, deixando para trás um lugar que nenhum homem deveria jamais visitar.

Ao contrário do que disse várias vezes o seu idealizador (Francis Ford Coppola), "Apocalypse Now" não parece de forma alguma um compromisso entre visão artística e arrecadação nas bilheterias. Pelo contrário. O filme é um épico de tal magnitude e escopo que encontra par apenas entre as melhores obras do gênero de um seleto e pequeno grupo de outros ilustres idealizadores (entre eles Eisenstein, Tarkovsky, Lean e Kurosawa).

O que mais impressiona na direção de Coppola é a sua paciência em criar imagens absolutamente marcantes e belíssimas à medida que a simples história toma o seu curso, sem se apressar, fazendo de CADA cena um grande momento por si só. Detalhando a viagem e continuamente surpreendendo a audiência com um aparentemente interminável arsenal de tomadas criativas e uma sensibilidade a toda prova. A atmosfera vai se tornando cada vez mais densa à medida que a história progride até a sua cena final. As composições em múltiplas camadas não se perdem em um virtuosismo estéril. Elas são uma das marcas registradas do diretor. Da mitológica cena de abertura até a emblemática visão de Willard aparecendo de dentro do pântano para matar Kurtz no final, o filme parece uma colagem de grandes momentos do Cinema. BRAVO!

A fotografia (Oscarizada) do mestre Storaro é um primor, assim como um som excepcional (também Oscarizado). A junção de músicas já existentes (como a canção "The End" do grupo The Doors que abre e fecha o filme) e uma envolvente trilha incidental (de Carmine Coppola & Francis Ford Coppola & Mickey Hart) é genial e perfeita. Os outros valores de produção também funcionam bem, a atmosfera do filme é ABSOLUTAMENTE espetacular. Além disto, nenhuma atuação deixa a desejar. A de Sheen é excelente, mas eclipsada por um trio de peso. O temperamental Brando (com uma voz - recitando poesia - e uma linguagem corporal de dar medo - sempre nas sombras), o frenético Hopper (cujo personagem descreve o de Brando como um "legitimo guerreiro poeta") e Duvall, o melhor de todos aqui, projetando uma aura de invulnerabilidade que se presta perfeitamente ao seu personagem (aquele mesmo que adora o cheiro de Napalm pela manhã).

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ELENCO PRINCIPAL:

Marlon Brando .... Col. Walter E. Kurtz
Robert Duvall .... Lt. Colonel William 'Bill' Kilgore
Martin Sheen .... Capt. Benjamin L. Willard
Frederic Forrest .... Engineman 2nd Class (EN2) Jay Hicks/'Chef'
Albert Hall (I) .... Chief Quartermaster (QMC) Phillips
Sam Bottoms .... Gunner's Mate 3rd Class (GM3) Lance B. Johnson
Laurence Fishburne .... Gunner's Mate 3rd Class (GM3) Tyrone Miller/'Mr. Clean'
Dennis Hopper .... Photo Journalist
G.D. Spradlin .... General R. Corman
Harrison Ford .... Colonel G. Lucas
Jerry Ziesmer .... Civilian (Jerry)
Scott Glenn .... Captain Richard Colby

DIREÇÃO: Francis Ford Coppola

ESCRITO POR: Joseph Conrad (autor do livro "Heart of Darkness") & John Milius e Francis Ford Coppola & Michael Herr

FOTOGRAFIA: Vittorio Storaro

OBRAS RECOMENDADAS DO DIRETOR: "THE GODFATHER I (1972)", "THE GODFATHER II (1974)", "APOCALYPSE NOW (1979)", "THE CONVERSATION (1974)" e "THE GODFATHER III (1990)".

"APOCALYPSE NOW (1979)"

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Review de Groundhog Day (1993)

"GROUNDHOG DAY (1993)"

Duração: 101'

Recomendação: 4/4

Phil Connors é apresentador da previsão meteorológica de um canal de TV e visita anualmente uma bizarra festividade na pequena cidade interiorana de Punxatawney. Sua equipe de campo é composta pelo cinegrafista Larry e por sua produtora Rita. Connors é um absoluto egocêntrico e com uma visão extremamente cínica do mundo e de todos, que odeia assistir a cerimônia em que o seu xará, Phil a marmota, faz a sua própria "previsão" sobre uma possível chegada antecipada da primavera. O "Phil de duas patas" grava uma apresentação bem "nas coxas" e faz questão da partida imediata.

Voltando para a sua cidade natal, no furgão de reportagem, os três são surpreendidos por uma nevasca, que contraria completamente a previsão de Connors do dia anterior. Eles têm que voltar a "capital nacional da marmota", mas o jornalista se recolhe cedo, deixando seus dois colegas aproveitando o restante das festividades. Quando ele acorda, as 6:00hs, ao som de Cher no despertador, ele percebe que é o "dia da marmota" DE NOVO! E tal ciclo continua a se repetir, dia após dia, sem que ele possa fazer nada para quebrá-lo (e ele recorre a todo truque possível e imaginável para se safar).

"Groundhog day" é SCIFI e também é uma fábula, mas evita com competência algumas armadilhas dos dois gêneros. Ele não se preocupa (de forma alguma) em explicar (em nenhum grau) o loop temporal em que Phil se vê preso. Perguntas como: "Porque?" "Como?" "O que (ou quem) fez isto?" Ficam no ar para que cada espectador construa a sua própria interpretação da história. Isto leva também a mensagem do filme, que é apresentada de uma forma sutil, gradual e envolvente. E não esfregada nas faces da audiência como muitas vezes ocorre em produções ditas: "família".

Inicialmente ao se ver preso em tal armadilha temporal, percebendo que pode manipular situações e pessoas para conseguir qualquer coisa que deseje e não ter que responder por seus atos no dia seguinte, Phil Connors se diverte em um festival de excessos: sexo, dinheiro, comida, adrenalina etc. Em um dado momento, a tentação é grande demais e ele decide fazer com que Rita se apaixone por ele. De fato ele consegue, mas Rita percebe (de forma intuitiva) que algo está errado e o encontro termina mal (com uma bofetada). Inseguro com o fracasso, ele não consegue mais repetir tal feito. Já perdidamente apaixonado por ela, que ele encontra toda manhã para cobrir a festa (de novo e de novo e de novo). Ele entra em depressão e decide se matar.

(Percebam que 34 "dias da marmota" são mostrados no Filme, mas o número total é indefinido, permitindo que Phil acumule suficiente conhecimento da cidade e das pessoas para fazer literalmente o que quiser.)

(Um ponto interessante é que ele faz exatamente o que uma pessoa de carne e osso faria em tais circunstâncias e não automaticamente assume alguma espécie de "missão divina".)

Connors rapta Phil (a marmota), dando origem a uma hilária perseguição de carros que termina com eles dois mortos. Para tudo recomeçar no dia seguinte as 6:00hs (ele tenta vários suicídios, mas o destaque vai para aquele em que ele se joga de um prédio, uma bela cena sem dúvida, esteticamente e dramaticamente). Ele, com tanto poder e sem poder morrer, começa a se achar uma divindade. Ele abre o jogo com Rita, que acredita nele. Ela acaba por adormecer na cama com ele e Phil diz que ela é a pessoa mais gentil e bondosa que ele já conheceu (em uma cena extremamente tocante e atuada com extrema sinceridade por Murray).

Tudo volta a estaca zero, mas Phil acorda renovado, passa a tratar todos bem, aprende a tocar piano, fazer esculturas de gelo, começa a ajudar e a salvar pessoas e recebe uma tremenda lição de humildade, ao não conseguir salvar a vida de um velho mendigo por mais que tente (mostrando que o seu poder tem limites). Na festa da noite do "dia da marmota", ele toca na banda e tudo que ele fez pela comunidade volta para ele com o carinho de todos os presentes. Rita fica muito impressionada e acaba "comprando" Phil em um "leilão". Eles vão dormir juntos e acordam no dia seguinte ao "dia da marmota". Phil fica muito feliz, mas percebe que nunca mais vai poder deixar aquela cidadezinha que se tornou tão especial para ele. Muito menos o seu amor, Rita.

Connors inicialmente mantém todo o seu cinismo e tenta tirar o melhor proveito da situação e só começa a fraquejar quando a experiência começa a se mostrar absolutamente inexorável e mesmo cruel. Como se dizendo que a única mudança que é realmente verdadeira e permanente em nossas vidas é aquela que se processa no interior de nós e que a falta de fé no mundo é a verdadeira mãe do cinismo (e provavelmente do pequeno envolvimento do povo nas causas sociais também).

Connors não gostava de si próprio e projetava a impressão que não gostava de ninguém por causa disto. Ele odiava a cerimônia com a marmota Phil, pois ela só o lembrava o quanto ele era infeliz em seu trabalho (ele é simplesmente a face da notícia e a marmota é a mascote de uma cerimônia - os óbvios paralelos, incluindo o próprio nome, eram demais para ele). Ele queria adoração e não amor. Ele procurava poder e não esclarecimento. Ele queria reverência e não gentileza. Temos idéias aqui que vão ressonar forte e de forma diferenciada para muita gente, sendo ai onde reside à beleza do filme.

Todas as idéias trazidas à tona pelo Filme são muito singelas, mas funcionam por que elas são apresentadas de uma maneira simples, honesta e contida (contido como é praticamente todo o humor do filme também - um dos principais motivos para o seu sucesso).

Harold Ramis (dublê de roteirista, produtor, diretor e ator - ele é o infame Dr. Egon Spengler dos filmes da série "Ghostbusters" E faz uma ponta como o neurologista que atende Phil Connors aqui) realizou literalmente o "trabalho da sua vida" com este filme. A forma como as múltiplas iterações da experiência de Phil foram apresentadas, tanto em termos do roteiro, quanto em termos da edição final do filme (uma tarefa realmente não trivial), são os seus maiores méritos técnicos. Além disto, o filme é bastante quadrado, mas curiosamente para o seu próprio benefício.

Bill Murray (de "The Royal Tenenbaums (2001)", "Ed Wood (1994) " e "Rushmore (1998)"), Andie MacDowell (de "The Player (1992)" e "Short Cuts (1993)"), Chris Elliott (de "The Abyss (1989)" e "There's Something About Mary (1998)") e Stephen Tobolowsky (de "Memento (2000)" e "The Insider (1999)") são os nomes mais importantes do elenco.

Tobolowsky fica com as partes mais histriônicas do filme, que felizmente são poucas. Elliot não têm muito que fazer, mas é curioso perceber, ao final, como o seu personagem não era o "coitadinho" que a sombra do "velho Phil" parecia dar a entender. Macdowell só precisa da cena inicial em que ela brinca sem jeito com a "tela azul" da previsão meteorológica, para que nós tenhamos certeza do poço de doçura que é a sua personagem. Era disto e somente disto que o filme precisava da atriz. Murray sustenta o filme aparecendo literalmente em cada cena, sem nunca deixar a peteca cair. Ele faz do cinismo de seu personagem algo tangível, mas utiliza subtexto para mostrar que existem motivos para tanto e também para angariar simpatia da audiência desde o inicio (sem falar que o seu "timming" cômico é absolutamente impecável). Mais tarde, quando Phil toma o seu caminho de redenção, as qualidades do personagem tem de onde aflorar (das sementes de subtexto que ele plantou) e Murray mantém uma pontinha de cinismo, garantindo a continuidade e credibilidade do personagem. Excelente trabalho!

Enfim, um Filme que pode ser apreciado superficialmente como uma divertida comédia, ou que pode trazer uma simples e verdadeira lição de vida se o espectador estiver disposto a se envolver um pouquinho mais. Uma das melhores comédias românticas (com um pé no gênero da Fantasia) da história do Cinema Americano.

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ELENCO PRINCIPAL:

Bill Murray .... Phil Connors
Andie MacDowell .... Rita
Chris Elliott .... Larry
Stephen Tobolowsky .... Ned Ryerson

DIREÇÃO: Harold Ramis

ESCRITO POR: Danny Rubin (história e roteiro) e Harold Ramis (roteiro)

FOTOGRAFIA: John Bailey

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"GROUNDHOG DAY (1993)"

Review de Snakes and Arrows

Review de "Snakes And Arrows" [***1/2]

Antes de falar sobre o novo álbum do Rush, vou me colocar em relação a banda Canadense e a sua discografia.

Eu sou basicamente um fã Browniano da banda Rush (dos trabalhos produzidos em conjunto com o genial Terry Brown), do primeiro álbum até o álbum Signals e por causa desta fase ela é no mínimo uma das minhas três bandas de rock favoritas (ao lado do Black Sabbath com Ozzy e do Genesis com Peter Gabriel).

Mas (diferentemente de outras bandas favoritas) como os três patetas (Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart) nunca se separaram eu sempre mantive uma atenção especial na carreira deles, não necessariamente por esperar um novo momento mágico como (por exemplo) ao escutar o álbum Hemispheres pela primeira vez, mas talvez sim experimentar ao menos uma pequena centelha e uma certeza de que eles ainda estavam vivos e em forma e esperar ver um show deles. Após ver o show (aqui no Rio) a minha atitude não mudou muito e eu espero ver o próximo (risos). Resumindo: acompanhei quase que religiosamente a carreira deles, mas sempre com baixa expectativa quanto ao material novo a partir de certo ponto.

O novo álbum é o melhor desde Signals só levando em conta a produção, esquecendo todo o resto. Estava zapeando o catalogo do Rush nesta tarde justamente na porção entre os dois álbuns (Signals até Snakes And Arrows). E em praticamente cada faixa, que caia quase que ao acaso, dava de cara com algum arranjo horroroso de teclado (ou algo menos votado fazendo tal papel), trilhas fantasmas de vocais, partes equivocadas com cordas, pifios efeitos sonoros, crônica má captação da bateria (principalmente), timbres emasculados de guitarra, falta de peso etc. etc. Neste novo álbum simplesmente NÃO TEM NADA DISTO! Parece inacreditável, mas eles levaram 25 ANOS para se dar conta das inúmeras bobagens que fizeram neste meio tempo. Mas, antes tarde do que nunca...

Sobre o meu entusiasmo composicional (que fazendo a média das faixas como descritas, nem é tão grande assim...) a minha opinião pode ser vista abaixo, mas já sem dúvida nenhuma na minha mente o Nick (o novo e jovem produtor, fã confesso da banda) trouxe literalmente o power-trio de volta a vida. Porque o leitor acha que já se fala em outro álbum com ele? Talvez o Snakes And Arrows tenha sido só um teste... Vamos ver o que acontece.

Antes do comentário música a música, deixem-me responder a uma questão recorrente: qual a relação do Rush com o estilo Prog-Metal?

Sobre o estilo que muitos chamam hoje dia de Prog-Metal o Rush foi sem muita dúvida o pioneiro, é fato que alguns elementos primitivos de tal estilo podem ser encontrados mesmo no Jethro Tull ou no King Crimson setentistas, mas o Rush fez algo de fato sistemático e novo. Esta é a sua grande contribuição para a História do Rock. Ele criou um novo sub-gênero. Entretanto, dependendo da banda de Prog-Metal considerada, uma grande influência da banda americana Kansas também pode ser identificada eventualmente. O Kansas é outra banda importante e influente, porém muito esquecida (infelizmente).

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Impressões das músicas do novo álbum com notas de 0 a 10 (o melhor desde Signals):

Far Cry (07/10) Eu não diria que é a música mais acessível para um público genérico, ela é sim uma boa maneira de vender o álbum para um público já de fãs do RUSH, por ser o que normalmente se espera de uma nova música da banda. Mais do mesmo sim, mas muito bem feito e os violões e os solos cheios de feedback já se fazem presentes.

(Examinem os elementos vintage do arranjo de bateria de Neil Peart ao longo desta faixa: "chimbal aberto + rim-shot" , "padrão de duas mãos no chimbal" , "padrão de ride com chimbal remoto no contra" e "levada construida a partir de paradidles para o refrão". Mais "vintage professoral" impossível!)

Armor & Sword (10/10) A faixa título é o primeiro grande momento do álbum, destaque para Peart que se permite experimentar com o pedal duplo agora na criação de levadas e ainda descola um inspirado "Jungle Groove" após a segunda repetição do refrão que revitaliza a música até o seu final.

(A letra é maravilhosa e a frase "No one gets to their heaven without a fight" promete ser a mais presente nas camisetas dos fãs na nova turnê. Grande interpretação de Lee em uma música que melhora a cada audição.)

Workin' Them Angels (07/10) Influência sessentista (será devida ao trabalho anterior de estúdio da banda, o EP, só de covers de músicas que influenciaram o início de carreira do Rush, Feedback?) em uma boa canção, mas dificilmente algo excepcional. Vale mais por acrescentar variedade ao repertório da banda.

The Larger Bowl (03/10) Esta também parece meio sessentista e talvez seja o ecletismo que pareceu menos genuíno em todo o álbum (e os arranjos vocais de Lee beiraram o ridículo aqui).

Spindrift (08/10) Hipnótica e atmosférica são as melhores descrições da mais pesada faixa do álbum. Se mantivesse a mesma intensidade o tempo todo seria um fácil 10.

The Main Monkey Business (10/10) Esta surpreende, pois não é o que se esperava dela, algo cheio de notas e frenesi. A faixa é belíssima. Soa mais como um tributo ao progressivo setentista e uma sincera homenagem de Lifeson a Steve Hackett e Martin Barre (sem contar no riff quase Sabbathiano que entra pela primeira vez em 00:50, é claro). A forma como Peart harmoniza toda a sua bateria para o arranjo, por vezes desligando a esteira da sua caixa para dar uma intenção mais tribal, é absolutamente magistral!

The Way The Wind Blows (10/10) De uma introdução completamente blues (que se segue a um surpreendente prelúdio na bateria) sai a melhor faixa do álbum. Tem de tudo desde um groove muito pesado para os versos e um refrão que fica mais bonito a cada vez que é repetido (o arranjo vai ficando cada vez mais cheio). A marcação de Peart é impressionante sem dar folga em momento algum e o solo de Lifeson é até brincadeira. 10 com louvor!!!

Hope (08/10) Inusitado momento (de uma instrumental só com violões em um álbum de estúdio do Rush), e o mais incrível é que funcionou muito bem. Provavelmente por ser o violão tão dominante (teria sido mesmo conselho do David Gilmour do Pink Floyd?) ao longo de todo o álbum. Parece ter uma influência Celta filtrada via Jimmy Page.

Faithless (06/10) Depois de uma introdução inusitada com Hope, acho que a letra de Faithless merecia uma música melhor. Parece feita de sobras do Vapor Trails (o fraco álbum anterior de músicas inéditas da banda). É até bem tocada, mas a composição é absolutamente medíocre. Devo admitir que ela já cresceu um ponto comigo (e ao vivo pode crescer ainda mais), mas definitivamente não uma favorita no momento (apesar do solo de Lifeson ser bem legal...) .

Bravest Face (09/10) Letra e música se combinam em fina ironia, no mais bagaceiro momento do álbum. O solo de Lifeson consegue o impossível, bater a sobrenaturalmente "levada" levada (risos) de Peart. E o que foi aquele violão solitário no inicio? Amei, que safadeza gostosa...

Good News First (03/10) Segunda mais fraca do álbum. Começa a parte do verso de uma forma horrorosa, lembrando os piores momentos do Vapor Trails (o groove introdutório parece também chupado do Counterparts por falar nisto) até que um pós-refrão hiper-melódico dá vida a este marasmo, pena que é muito pouco e muito tarde.

Malignant Narcissism (08/10) De longe a a música mais original do álbum (Geddy Lee tocando em um baixo elétrico sem trastes já é histórico por si só), que só não leva 10 por ser muito curta, especialmente devido a descartável paródia de YYZ, mais para o seu final. Uma versão de uns dez minutos (EXCLUINDO a mencionada paródia) desta música seria perfeita como bônus (tirando a lamentável We Hold On do álbum é claro) .

We Hold On (01/10) De longe a mais fraca do álbum, deveria ter sido excluída para dar lugar a uma versão maior de Malignant Narcissism (nos termos já mencionados). Seu inicio remete a Between Sun & Moon do Counterparts e é apenas o começo da mais pura reciclagem. Peart decepciona especialmente aqui pela total falta de inspiração (tem um particular lick de bumbo duplo que REALMENTE já deu o que tinha que dar e que é repetido diversas vezes nesta faixa).

Review de "Snakes And Arrows"